Ao contrário das manifestações de dezembro – que contaram com adesão bem
abaixo do esperado, dando certo alento ao governo federal –, os atos deste
domingo têm expectativa de enorme público. Só na página do evento do protesto
da Avenida Paulista, o maior entre os centenas que ocorrerão, mais de seis
milhões de pessoas aparecem como convidadas, número amplamente superior ao
de manifestações anteriores, incluindo a de 15 de março, quando 2 milhões foram
às ruas em todo o País, segundo a Polícia Militar – 1 milhão, de acordo com o
Instituto Datafolha.
Lideranças de todos os partidos da oposição passaram a semana convocando
a população para os atos. Mais discreto tucano em relação ao assunto até o
momento, o governador paulista, Geraldo Alckmin, confirmou que fará sua estreia
nas manifestações contra o PT – e ao lado do presidente do PSDB, o senador
Aécio Neves, rival dentro do partido na disputa pela vaga para
concorrer nas próximas eleições presidenciais. Dezenas de parlamentares da
legenda e de seus aliados também anunciaram presença nas ruas.
Além de ser a primeira vez em 2016 que os movimentos
anti-Dilma fazem grandes manifestações, é também a primeira vez
que os atos contra o PT são tratados com alerta real para risco de violência
pelas Polícias Militares de diversas partes do País. A preocupação é de
que haja conflito entre grupos pró e contra Dilma. Ao longo da última semana, com o surgimento de novas suspeitas de crimes
contra Lula, o temor de violência se tornou o discurso da vez. Foi assim,
por exemplo, em São Paulo, com Alckmin afirmando que não permitiria
manifestações de grupos antagônicos no mesmo local, e no Planalto, com a
presidente Dilma reiterando ao menos em três discursos sua preocupação com a
possibilidade de confrontos.
Os organizadores dos protestos amenizam a possibilidade de violência.
“Acho difícil ter conflito. O artigo 5º da Constituição garante que qualquer
pessoa é livre para se manifestar desde que não haja manifestação contrária no
mesmo lugar. Então, assim como foram os protestos do ano passado, teremos o
espaço livre para levantar as nossas bandeiras e confiamos nas autoridades para
garantir a segurança de todos”, diz Rogerio Chequer, líder do Vem Pra Rua. “Se
conseguirmos levar um milhão de pessoas às ruas em todo o Brasil, o que
acreditamos que acontecerá, já vai ser um sinal bem claro de que o Brasil quer
o impeachment.”
Tensão
nas ruas
A situação de tensão entre grupos favoráveis e contrários à queda de Dilma vem se intensificando há cerca de um mês, após período de relativa calmaria como consequência do recesso parlamentar, que paralisou o Congresso Nacional e a possibilidade de se discutir o processo de impeachment.
A situação de tensão entre grupos favoráveis e contrários à queda de Dilma vem se intensificando há cerca de um mês, após período de relativa calmaria como consequência do recesso parlamentar, que paralisou o Congresso Nacional e a possibilidade de se discutir o processo de impeachment.
Após um ano convivendo em uma espécie de “guerra fria” – na qual se
atacavam mutuamente com palavras de ordem em protestos e nas redes
sociais, mas só isoladamente frente a frente, já que seus atos não ocorriam
na mesma data –, em fevereiro, pela primeira vez movimentos contrários e
favoráveis à presidente se viram reunidos em um espaço em comum, na frente do
fórum onde Lula prestou depoimento sobre um tríplex no litoral paulista com o
qual teria sido beneficiado por empreiteiras.
Na ocasião, manifestantes agiram com violência, trocaram socos e chutes,
usaram paus e pedras uns contra os outros. No último dia 4, os conflitos
aumentaram em tamanho e se espalharam, consequência da deflagração da 24ª fase
da Lava Jato, batizada de Operação Lava Jato, que emitiu mandados de busca e
apreensão contra residências de Lula e do instituto que leva o seu nome e
obrigou o ex-presidente a prestar depoimento na Polícia Federal. Quando o
Ministério Público do Estado de São Paulo pediu à Justiça a prisão preventiva
do principal símbolo do PT, na quinta-feira (10), políticos e militantes do
partido garantiram: agora é guerra.
Assim que o pedido foi divulgado, uma reunião de emergência foi
convocada pela Frente Brasil Popular para discutir os próximos passos da
militância a partir do momento em que o MP pediu a prisão do maior símbolo
do PT. Fundado em setembro passado, o grupo reúne 65 entidades sindicais,
legendas partidárias e movimentos sociais ligados ao partido de Dilma,
incluindo o próprio PT, o PCdoB, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a
União Nacional dos Estudantes (UNE).
Ao mesmo tempo, o PT se mantinha em estado de mobilização
permanente ao longo da noite, concentrando suas lideranças nos diretórios
estaduais do partido em São Paulo e em Brasília para aguardar o desenrolar dos
fatos a fim de definir a estratégia para defender o ex-presidente. A
orientação, tanto aos militantes do partido quanto a seus aliados, seria
definir os rumos coletivamente e evitar possíveis protestos isolados, que podem
levar a conflitos com grupos anti-Dilma como os que ocorreram nas útimas
semanas.
Apesar disso, ao menos duas manifestações pró-PT ocorrem neste
domingo, uma organizada por coletivos de artistas ligados a movimentos de
esquerda, batizado de Sem Medo de Ser Feliz –
título do jingle da campanha de 1989 de Lula para a Presidência –, e outra
promovida pela própria Frente Brasil Popular, em Porto Alegre. E lideranças do partido, parlamentares e militantes de centrais
sindicais admitem ser impossível impedir as pessoas de irem às ruas
isoladamente, especialmente devido ao que chamam de “sentimento de enorme
indignação gerado pelas injustiças contra Lula”. Sensação que deve
crescer entre apoiadores do ex-presidente diante de acusações inflamadas
feitas nos últimos dias.
Na noite de sexta-feira, a PM paulista foi acusada de tentar
intimidar militantes ao comparecer à subsede do Sindicato dos Metalúrgicos do
ABC, onde ocorria uma reunião a respeito de protestos – a corporação
divulgou nota na qual repudiou a conotação política que movimentos de esquerda
tentaram dar à ação. Na manhã seguinte, o PCdoB e a União
Nacional dos Estudantes, ambos ligados ao partido da presidente, acusaram
grupos de direita de pichar as fachadas de suas sedes, levando suas
lideranças a comparar o episódio à ditadura militar. Tudo isso às
vésperas dos grandes atos deste domingo. Em nota, as Secretarias da Segurança Pública de São Paulo, Rio de
Janeiro, Belo Horizonte, Pernambuco, Distrito Federal e Rio Grande do Sul
garantem que todas as medidas foram tomadas para garantir a segurança dos
manifestantes ao longo do dia.
Blog do BG

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